domingo, 8 de novembro de 2015

A roda




A roda trilhou um caminho
E tudo passou a rodar
A vida, o tempo, o moinho
Deixai a roda rodar.

Alguém viu a roda?

A roda bateu
A roda sumiu
A roda girou
Voltou á roda a rodar

A roda revolta
Que roda imprudente
Girando tão solta
De traz para frente

A roda preguiça
Que roda em desleixo
Girando em seu eixo
Sem nada enxergar

Mas apesar dos pesares
A roda me transportou
Me fez flutuar pelos ares
E hoje fumaça eu sou.

Deixai a roda rodar
A roda brincando de roda
A roda girando no ar...
Alguém viu a roda?


Susana Luiz



"Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser.
Tortuoso é o caminho da eternidade". 
Friedrich Nietzsche.


domingo, 20 de setembro de 2015

Luz de pirilampos






















 

Luz dos olhos meus
Dos olhos teus
Dos olhos das crianças
E dos olhos dos poetas.

Uma luz que me acompanha em sonhos
Luz de mistérios, e de magia
De pirilampos piscando risonhos
Refulgindo ao luar poesia.

Tal qual cristais de brilhantes 
No garimpo dos rios a brilhar
Que o "poeta", busca incessante
Sob a luz do sentido, o pensar.

Lembra-me o colorido das ágatas
A vida singela dos campos
Por onde cintilam nas matas
Em fachos de luz, pirilampos.

A mina de onde vens?
Ah! Não se esgota,
E de onde brotas
Vem a eternidade.

O perene, 

Na magnitude da existência, 
A verdade.



Susana Luiz


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Imponderável






Quando voo, estou no alto
Deslocada um pouco deste fundo
Quando estou solta, no espaço
Penso tão leve...
Que as vezes me confundo.

Sou daqui ou alma de outro mundo?





Susana Luiz






"A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe"
Mario Quintana

terça-feira, 26 de maio de 2015

Conto maior de terror a La Stephen King.




Aqueles que tem consciência da morte
Ao invés de consciência de vida
Quem lhes deu tal sorte?
Quem lhes deu guarida?

A morte pode ser um estorvo
Mas não a rainha desse império
Que se fosse estaríamos todos mortos
E se inertes o que esperar de tudo?
O triunfar dos abismos, dos suicídios e genocídios?

Que depois dela persista sempre, um fio condutor
Que transmita o calor da fonte, o estabelecido,
Para nós, a verdade última
Talvez adivinhada.

Que depois de tudo se recuperem os organismos
E num ciclo
Volte a instrução redesenhada
Sempre com o cunho da vida gritante
Neles ostentada.



Susana Luiz 


                                                                      
Imagem - Santiago Caruso

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Canção de mim mesmo










































Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.
Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.
Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.
A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,
Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.
Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?
Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.
Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.
Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora,
O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.
Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.
Não vale elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.
Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.
Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.
Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.
Apresentando o melhor e isolando do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a eqüanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.
Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo.
Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.
Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?
Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.
Longe do que puxa e do que arrasta, ergue-se o que de fato eu sou,
Ergue-se divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Olha para baixo, está ereto, ou descansa o braço sobre certo apoio impalpável,
Olhando com a cabeça pendida para o lado, curioso sobre o que está por vir,
Tanto dentro como fora do jogo, e o assistindo, e intrigado por ele.
No passado vejo meus próprios dias quando suei através do nevoeiro com lingüistas e contendores,
Não trago zombarias ou argumentos, apenas testemunho e aguardo.
(…)



Walt Whitman – Canção de Mim Mesmo)
(Poema do livro Folhas de relva. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 49. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Do paradoxo do amor









                                                                                                      
Amas e nem sabes se és amado
Na verdade não sabes quem amas
E quem é o ser amado.

Na verdade, se tu não sabes quem tu amas
Na verdade, tu não sabes porque amas
Na verdade, não sabes o que é amar.




Susana Luiz 
Os Amantes - Rene Magritte

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Hospício



Há sempre um hospício
Muito louco a nossa espera
Quem já não teve a seu dispor
Uma quimera
Que por pouco não foi absorvido?
E nessa entrega podia perder o sentido
E a mente desorganizada
Só faltava ser recolhida
Compulsoriamente
A uma instituição
Para curtir
Esquisita, frênica,
Os seus assemelhados?
E a essa espera quantos já se dispuseram
Na fila dos desvairados
Que nesses nossos tempos só aumenta.



Susana Luiz






Holocausto brasileiro: 60 mil mortes no hospício.






















Colônia de Barbacena, em Minas Gerais: crueldade além das palavras.

Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.
Quando chegavam ao hospício, suas cabeças eram raspadas, suas roupas arrancadas e seus nomes descartados pelos funcionários, que os rebatizavam. Daniela Arbex devolve nome, história e identidade aos pacientes, verdadeiros sobreviventes de um holocausto, como Maria de Jesus, internada porque se sentia triste, ou Antônio Gomes da Silva, sem diagnóstico, que, dos 34 anos de internação, ficou mudo durante 21 anos porque ninguém se lembrou de perguntar se ele falava. Os pacientes da Colônia às vezes comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados.




Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram deixados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Alguns morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio da Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.
















Fontes do livro: Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex.
Fotografias de Luiz Alfredo. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Aracné virtual





Passo, fuxico, estico, perpasso.

Alinho a linha no contexto
E a conjuntura no espaço. 

O fio que vem daqui
O fio que vem de lá.

Não é diferente o que esta dentro
Ou que esta fora,

Para cada fio que é tecido
Existe outro fio dentro da memória.

...

A aranha tece a teia 
com sabedoria...

E a urdidura do caminho é que me faz refletir:
Quão complicada pode ser a vida se você tramar contra ela.

Poema:
Susana Luiz


Aranha - Aranha é o símbolo das infinitas possibilidades da criação, foi ela quem nos ensinou, através dos símbolos de sua teia o segredo do alfabeto primordial. Suas oito pernas, simbolizam os quatro ventos da mudança e as quatro direções da roda sagrada, o círculo da vida. Essa carta aconselha que utilizemos a força feminina da criatividade, pois o ciclo é de imaginação criadora.
Adiantando-nos as circunstâncias, criaremos as condições necessárias para o nosso desenvolvimento pessoal. Não devemos ficar presos na teia do medo e limitados. Usemos nosso poder de criação, pois assim teremos abundância e prosperidade. Sua mensagem é que somos seres infinitos, procuremos abrir nossa mente e vejamos a magnitude dos planos do criador. Essa carta nos lembra que não deve existir a falta de amor ao próximo e ausência de criatividade. Numa relação, críticas só fazem romper com o relacionamento que se tem no momento. Devemos refletir melhor sobre isto. Já se não temos criatividade, não pare nunca, não seja autodestrutivo. Sempre há algo para fazer. Tudo pode mudar. 



Imagem - Santiago Caruso