sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Espectros



Caminhamos cheios de si, assoberbados
Por este mundo com poeira de estrelas
Que pegamos no céu.
Achamos que a luz que temos é nossa
E queremos brilhar sem pagar.

Tudo é fácil para um coração despreparado
Tudo é fácil para nossa mente desvairada
Somos desavisados
De que a vida não é nossa

Somos apenas atores atônitos.
Seres espectrais
Num mero rito de passagem.

Terra, mãe terra.
Me enterra
Em ti quando eu passar.

Para ti deixo meu corpo,
Que eu apanho quando voltar.
 





















quinta-feira, 16 de outubro de 2014

ELECTRA





































Para poder falar
Assim, de frente,
tive que permanecer toda uma vida
A chorar sobre teus ossos.
Tive de refazer a caminhada
desnudando a pele de minha consciência.
Para poder falar-te
tive que voltar a encher de ar
meus pulmões
E cuidar que não me encolheram as palavras,
o coração, os olhos,
porque ainda se desfazem de água
se te nomeio
Já me cresceu a voz, pai, patriarca,
velho de barba azul e olhos de chumbo.
Já posso te contar o que aconteceu
desde que partiste.
Com tua morte se quebraram todas as fundações
Não me atrevi a buscar
Porque não haveria
um carvalho com tua sombra e tua intensidade
que me cubrisse a chaga de sol em meu verão.
Uni o sangue que me deste a outro sangue.
Gravemente ferida,
apaguei a sombra do sexo entre os homens
e fiquei vazia, na tempestade.
E não pude dizer
até que se fez carne de minha carne o amor
o que era achar a própria sombra, entregando-se.
Depois quis aprisionar-te em mim, te pesei,
te ultrajei, te chorei, medi teus atos,
voltei atras,
e voltei a caminhar o caminho refeito.
Por isso posso falar-te agora, assim,
porque entendi tua medida de gigante.

II

Não podemos fazer nada com um morto, pai.
Se sua sangue,
se retorce o uivo jogado sobre as tumbas
em um charco de culpa.
Pai,
eu sou Pedro e São Tiago,
o sabre que dobrado de sono castrou seu espírito
em tua oração do horto.
Eu sou o viscoso medo de Pedro que escorreu
pela sombra na hora de teus merecimentos.
Sou o martelo batendo sobre teus cravos,
o ar que não assistiu ao pulmão em agonia.
Sou a que não compartilhou
a dor antecipada que se enclausurou
a devorar seu medo,
a ruptura irresponsável,
a debandada de apóstolos.
Sou este poço de noite em que se afunda a consciência.
Diga, que se faz com um morto, pai?
Diga, como lavo estas chagas
se tudo fica registrado no tempo
e todo tempo é memória?

III

Pendíamos de ti
como do cacho a uva.
Quando a morte arrefeceu o cerne de tua força,
pressentimos a vertigem na altura e a queda.
Um a um,
em relação direta com o peso de tua essência,
descemos.
E embaixo de anonimas pisadas vi saltar a polpa,
surpreendida.
E não era orgia de vindima
nem enervação de culto.
Fui ser a sede de sangue de todos os caminhos,
(fui) deixar desprender a pele
entre um enxame de alambrados.
Agora,
para afirmar o talhe
com que teu amor me fez
só fica uma espinha (dorsal):
a palavra.

IV

Perdão, irmãos,
porque não consigo vê-los
sufocada que estou em minha fossa
de pequenas misérias.
Mentira que desejo morrer!
Antes gostaria de conhece-los
sem minha lente deformante.
Talvez os amasse tanto
ou mais do que estou amando
a peso de lágrimas
nesta viagem na neblina.

V

Pai,
não posso amar a ninguém.
A nada que não seja este fogo
de suja consideração
em que se consome minha língua.
Quero outro ar.
Outra paisagem que não sejam os muros de meu corpo.
Emparedada, desconheço o esplendor do centro
e a nudez da periferia.
Vou abrir brecha entre os dois caminhos
e talvez fique para traz
a armadilha da velha roda d'água.


RETORNO DE ELECTRA


Para poderte hablar
así, de frente,
tuve que echarme toda una vida
a llorar sobre tus huesos.
Tuve que desandar lo caminado
desnudando la piel de mi conciencia.
Para poderte hablar
tuve que volver a llenarme de aire
los pulmones.
Y cuidar que no se me encogieran las palabras,
el corazón, los ojos,
porque aún se me deshacen de agua
si te nombro.
Ya me creció la voz. padre, patriarca,
viejo de barba azul y ojos de plomo.
Ya te puedo contar lo que ha pasado
desde que te fuiste.
Con tu muerte se quebrantaron todos los cimientos.
No me atreví a buscar
porque no habría
un roble con tu sombra y tu medida
que me cubriera de la llaga de sol en mi verano.
Uní la sangre que me diste a otra sangre.
Malherida,
borré la sombra del sexo entre los hombres
y me quedé vacía, a la intemperie.
Y no pude decir
hasta que se hizo carne de mi carne el amor
lo que era hallar la propia sombra, entregándose.
Después quise ubicarte en mí, te pesé,
te ultrajé, te lloré, medí tus actos,
di vuelta atrás,
y volví a caminar lo desandado.
Por eso puedo hablarte ahora, así,
porque entendí tu medida de gigante.

II

No podemos hacer nada con un muerto, padre.
Se suda sangre,
se retuerce el aullido tirado sobre las tumbas
en un charco de culpa.
Padre,
yo soy Pedro y Santiago,
el sable que doblado de sueño castró su espíritu
en tu oración del huerto.
Yo soy el viscoso miedo de Pedro que se escurrió
en la sombra a la hora de tus merecimientos.
Soy el martillo cayendo sobre tus clavos,
el aire que no asistió al pulmón en agonía.
Soy la que no compartió
el dolor anticipado que se enclaustró
a devorar su miedo,
la hendidura irresponsable,
la desbandada de apóstoles.
Soy este pozo de noche en que se hunde la conciencia.
Di, ¿qué se hace con un muerto, padre?
Di, ¿cómo lavo estas llagas
si todo queda inscrito en el tiempo
y todo tiempo es memoria?

III

Colgábamos de ti
como del racimo la uva.
Cuando la muerte
reblandeció el cogollo de tu fuerza,
presentimos el vértigo de altura y la caída.
Uno a uno,
en relación directa a la pesantez de tu esencia,
descendimos.
Bajo anónimas pisadas me vi saltar la pulpa,
sorprendida.
Y no era orgía de vendimia
ni enervación de culto.
Fue ser la sangre a la sed de todos los caminos,
dejar la piel desprendida
entre un enjambre de alambradas.
Ahora,
para afirmar la talla
con que tu amor me hizo
sólo queda una espina:
la palabra.

IV

Perdón, hermanos,
porque no alcanzo a verlos
ahogada como estoy en mi hoyo
de pequeñas miserias.
¡Mentira que deseo morir!
Antes quisiera conocerlos
sin mi lente deforme.
Quizá los amaría tanto
o más de lo que estoy amando
a mi lastre de lágrimas
en este viaje de niebla.

V

Padre,
no puedo amar a nadie.
A nada que no sea este fuego
de sucia conmiseración
en que se consume mi lengua.
Quiero otro aire.
Otro paisaje que no sean los muros de mi cuerpo.
Emparedada, desconozco el resplandor del centro
y la desnudez de la periferia.
Voy a abrir brecha hacia los dos caminos
y quizá quede atrás
la trampa de la vieja noria.




ENRIQUETA OCHOA
IMAGEM: ANKA ZHURAVLEVA
TRADUÇÃO (INÉDITA): SUSANA LUIZ



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Juízo final.




























O pássaro idiota pula para fora e se inclina bêbado
No topo do relógio universal quebrado:
A hora é cantada em treze lunáticos.

Nossos palcos pintados caem independentes das cenas
Enquanto todos os atores param em um choque mortal:
O pássaro idiota pula e se inclina bêbado.
(O pássaro idiota pula e embriagado inclina-se)

Ruas se partem através de ravinas abismais de estragos
Assim a cidade compungida desmorona bloco a bloco:
A hora é cantada em treze lunáticos.

Vidro fraturado voa para baixo em pedacinhos;
Nossas relíquias felizes foram colocadas no penhor:
O pássaro idiota pula e se inclina bêbado.

A chave inglesa desmontou todas as máquinas;
Nunca pensei (sequer) ouvir o galo santo:
A hora é cantada em treze lunáticos.

Muito tarde para perguntar se o fim justificou os meios,
Tarde demais para calcular a extensão dos danos:
O pássaro idiota pula e embriagado se inclina,
A hora é cantada em treze lunáticos.



"Doomsday"

The idiot bird leaps out and drunken leans
Atop the broken universal clock:
The hour is crowed in lunatic thirteens.
Out painted stages fall apart by scenes
While all the actors halt in mortal shock:
The idiot bird leaps out and drunken leans.

Streets crack through in havoc-split ravines
As the doomstruck city crumbles block by block:
The hour is crowed in lunatic thirteens.

Fractured glass flies down in smithereens;
Our lucky relics have been put in hock:
The idiot bird leaps out and drunken leans.

The monkey's wrench has blasted all machines;
We never thought to hear the holy cock:
The hour is crowed in lunatic thirteens.

Too late to ask if end was worth the means,
Too late to calculate the toppling stock:
The idiot bird leaps out and drunken leans,
The hour is crowed in lunatic thirteens.





Sylvia Plath
Tradução (Inédita): Susana Luiz



sábado, 4 de outubro de 2014





Nosso problema é existir no eclipse,
nosso dever é libertar-nos e
livres do obscuro enxergar as estrelas.




Susana Luiz