domingo, 25 de novembro de 2012

A Elevação das Mulheres na Sociedade

A crucificação da palavra por ela mesma.

Afinal, Jesus era heterossexual, homossexual, bissexual, assexuado, negro, branco, índio, asiático?
Quantas pessoas entre " Bruxas " e " Bruxos " morreram inocentemente enforcadas e queimadas?



Nova versão dos Evangelhos muda o sexo do Filho de Deus para feminino

© 2005 WorldNetDaily.com

Um grupo americano está promovendo uma nova edição dos Evangelhos que identifica Cristo como uma mulher chamada Judite Cristo de Nazaré.

O Instituto LBI diz que sua versão, Judite Cristo de Nazaré, Os Evangelhos da Bíblia, Corrigidos para Mostrar que Cristo Era Mulher, Extraídos de Mateus, Marcos, Lucas e João, “corrige” o sexo de Cristo e Deus.

“O texto revisado dos Evangelhos, que há muito se aguardava, torna a mensagem moral de Cristo mais acessível a muitos, e mais iluminadora para todos”, diz Billie Shakespeare, vice-presidente do grupo, em declaração oficial. “Dá mais poder. Publicamos esta nova Bíblia para reconhecer a elevação das mulheres na sociedade”.

A nova versão, de acordo com o grupo, revisou histórias conhecidas, transformando o “Filho Pródigo” na “Filha Pródiga” e a “Oração do Senhor” na “Oração da Senhora”.

Uma passagem compilada de Lucas 2, com versículos correspondentes no começo de cada sentença, diz: “4 E José foi a Belém. 5 Para se alistar com Maria, sua esposa, que estava então grávida. 7 E ela deu à luz seu primeiro bebê. 21 E o nome que foi escolhido para ela foi Judite”.
Uma passagem sobre a crucificação, de João 19, diz: “17 E levando sua cruz ela foi. 18 Ali eles crucificaram Judite”.

Uma passagem sobre a ressurreição de Mateus 28 declara: “1 Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. 5 Mas o anjo disse às mulheres: “Não tenham medo, pois sei que vocês estão buscando Judite que foi crucificada”. 6 “Ela não está aqui; pois Ela ressuscitou”.

A introdução do livro diz: “Omitimos vários acontecimentos do Evangelho que não estão relacionados aos ensinos morais de Cristo. No entanto, mantemos a narrativa básica da vida, morte e ressurreição”.


Ao contrário do que muita gente imagina, a maior parte dos casos de perseguições contra bruxas, queimadas em fogueiras coletivas, não aconteceu na Idade Média, mas no início do período moderno, do final do século 14 ao começo do século 18. Existe muito exagero sobre o assunto, que só começou a ser pesquisado na década de 1970. "Idéias falsas sobre as bruxas persistem até hoje. Jamais existiu qualquer culto de bruxas, envolvendo deusas, demônios ou deuses ancestrais, e as pessoas suspeitas de serem bruxas nunca tiveram conexão com religiões pagãs antigas", afirma o historiador Jeffrey Burton Russell, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Muitas dessas histórias foram alimentadas por escritores românticos do século 19, que criaram mitologias sobre essas figuras - a mulher que entra pelo telhado para chupar o sangue de crianças, bebe e gargalha voando de vassoura... Mas, então, quem eram as pessoas que iam parar na fogueira? Geralmente, eram os chamados hereges, gente que não seguia o catolicismo pregado pela Igreja. Em povoados mais supersticiosos, a coisa era mais complicada: na França do século 15, há registros de epidemias que geraram uma espécie de histeria coletiva - o povo culpava as bruxas pelas doenças. Aí, bastava a mulher ser esquisitona para ser considerada bruxa, perseguida e levada à fogueira. Um caso de preconceito explícito - e numeroso. Calcula-se que entre 40 mil e 50 mil pessoas foram executadas acusadas de bruxaria.

Perseguição aos acusados de bruxaria durou mais de 300 anos
1428
Na cidade de Valais, na Suíça, acontece o primeiro julgamento coletivo de pessoas acusadas como bruxas. Não se conhecem detalhes dos processos ou da quantidade de acusados e condenados, pois os registros foram na maior parte destruídos
1692
Na cidade de Salem, nos EUA, 150 pessoas são presas sob acusação de bruxaria, depois que algumas meninas alegaram ter sido enfeitiçadas. Um tribunal especial é estabelecido para julgar o caso. Dezenove pessoas são condenadas à morte e enforcadas
1793
Embora a data e o local sejam bastante controversos, a última execução por ordem judicial de suspeitas de serem bruxas na Europa parece ter acontecido na Polônia - duas mulheres foram queimadas na fogueira
1586
Publicação do livro O Martelo das Bruxas, escrito por dois frades dominicanos. Por possuir valor legal e religioso (o livro era aceito por católicos e protestantes), a obra serviu nos dois séculos seguintes como manual para identificar e eliminar bruxas.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Rosa dos ventos










 

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar



Chico.



Imagem - Eugenio Recuenco

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Direitas já !!!





Biografia Ayn Rand nasceu em São Petersburgo, Rússia, em 2 de fevereiro de 1905. Aos seis anos aprendeu a ler sozinha e aos nove já estava decidida a fazer da literatura e da ficção a sua carreira. Totalmente oposta ao misticismo e ao coletivismo da cultura russa, ela se via como uma escritora européia, especialmente após encontrar com Victor Hugo, o escritor que ela mais admirava. Metafísica - Realidade Objetiva Epistemologia – Razão Ética

– Interesse pessoal Política – Capitalismo Traduzindo para uma linguagem simplificada: 
1. “A natureza, para ser comandada, precisa ser obedecida” ou “só querer algo não faz com que aconteça.” 2. “Você não pode comer o bolo e ter ele ao mesmo tempo.” 3. “O homem é um fim em si mesmo.” 4. “Liberdade ou morte.”

Mantendo estes conceitos com total consistência, como base das suas convicções, tem-se um sistema filosófico completo para guiar o curso da sua vida. Mas para mantê-los com total consistência – entender, definir, provar e aplicar – é necessário um volume de pensamento.

 Sua filosofia, o objetivismo, considera que: A realidade existe como um absoluto objetivo—fatos são fatos, independente dos sentimentos, desejos, esperanças ou medos do homem. Razão — a faculdade que identifica e integra o material provido pelos sentidos do homem — é o único meio do qual o homem dispõe para perceber a realidade, sua única fonte de sabedoria, seu único guia para a ação e seu meio básico de sobrevivência. O homem — todo homem — é um fim em si mesmo, não um meio para um fim alheio. Deve existir por si, não para sacrificar-se aos outros nem para sacrificar aos outros por si. A busca de seu próprios interesses racionais e da sua própria felicidade é o maior propósito moral de sua vida.

O sistema político-econômico ideal é o capitalismo liberal (laissez-faire). É um sistema onde os homens lidam uns com os outros, não como vítimas e executores, não como mestres e escravos, mas como negociantes, através de livres e voluntárias trocas para benefício mútuo. É um sistema onde nenhum homem pode obter qualquer valor dos outros apenas pela foça física, e nenhum homem pode iniciar o uso da força física contra os outros. O governo age somente como um policial que protege os direitos do homem; usa a força física apenas em retaliação e apenas contra aqueles que iniciam o seu uso, como criminosos ou invasores estrangeiros. Num sistema de capitalismo total, deve haver (ainda que historicamente nunca tenha havido) uma separação completa entre Estado e Economia, do mesmo modo e pelas mesmas razões da separação entre Estado e Igreja.


Sua filosofia e sua ficção enfatizam, sobretudo, suas noções de individualismo, egoísmo racional, e capitalismo. Seus romances preconizam o individualismo filosófico e liberalismo econômico. Ela ensinava:

  • Que o homem deve definir seus valores e decidir suas ações à luz da razão
  • Que o indivíduo tem direito de viver por amor a si próprio, sem se sacrificar pelos outros e sem esperar que os outros se sacrifiquem por ele
  • Que ninguém tem o direito de usar força física para tomar dos outros o que lhes é valioso ou de impor suas ideias sobre os outros.


"A independência de um homem é a única medida da sua virtude e do seu valor. O que um homem é, e o faz de si mesmo; não o que fez, ou deixou de fazer, pelos outros. Não há substituto para a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe é a independência. Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém". (Ayn Rand)



“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada” – Ayn Rand



 

"No amor a moeda é a virtude. Você ama as pessoas não pelo o que você faz por elas, ou o que elas fazem por você. Você as ama pelos valores, as virtudes que elas alcançaram em seu próprio caráter. Você não ama sem causa, você não ama a todos indiscriminadamente. Você ama apenas aqueles que merecem. (...) Se um homem deseja amor, ele deveria corrigir suas fraquezas ou suas falhas, e ele pode merecê-lo. Mas ele não pode esperar o não merecido. Nem no amor, nem no dinheiro. Nem na matéria, nem no espírito." 


(Ayn Rand defendendo o seu 'Randismo', um novo principio de moralidade, para tornar o ser humano digno de amor, mesmo não sendo esse o seu objetivo primário)


Ayn Rand e a filosofia objetivista

Metafísica e Epistemologia


A Metafísica do Objetivismo está muito calcada na idéia de realidade, operando por causas e efeitos, e atuando com a natureza.
Ínvoca o princípio Socrático: "As coisas são o que são".
Essa prática metafísica inibe qualquer contradição pois estamos tentando conhecer a realidade e o princípio fundamental da realidade é que A é A – não há contradições na realidade. Pensar logicamente é colocar os dados em um modo não-contraditório.
Dessa forma o objetivismo rejeita o ceticismo, que nega a verdade absoluta (transforma tudo em opinião), e o misticismo.
Para o objtivismo existe sim verdade absoluta.

A epistemologia no objetivismo afirma a razão e a evidência dos sentidos.
É totalmente voltado na valorização da observação sensorial (visão, audição, paladar, tato, olfato).

Ela trata como axioma a realidade e a percepção da realidade pelos sentidos. A validade dos sentidos é axiomática.


Razão e Objetivismo

A razão é o bem maior e o que define a particularidade humana. Todos valores morais que cultivamos passaram pelo jugo da razão. A razão deve ter como princípio a investigação e defesa da realidade pura.
Um dos conceitos morais que foi unido ao pensamento humano pela razão é a honestidade.
Ou seja, a rejeição de falsificar a REALIDADE de sua existência de qualquer maneira, seja para si mesmo ou para outros.

O desonesto não é racional, ou só é parcialmente.
A sua flexibilidade moral da pessoa desonesta reflete apenas sua flexibilidade racional.
A razão não esconde a verdade e é avessa a mentira, em qualquer situação.

O Objetivismo também implode dicotomias como altruísmo e egoísmo.
Os pensadores dizem que você é um altruísta se sacrificar-se pelos outros e um egoísta se sacrificar os outros por você. O Objetivismo rejeita os dois lados dessas dicotomia. Uma ética realmente egoísta não envolve sacrifícios, mas cada um vivendo em sua função e respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.

Podemos concluir que é uma filosofia totalmente individualista, regulada pelo sentimento moral.
Sentimento moral, fruto da razão, pois ele age em benefício da busca do bem estar do indivíduo, ou seja, beneficia você mesmo, a curto, médio ou longo prazo.

Essa é a ética.
A ética nos diz que cada homem é um fim em si mesmo e necessita da razão para sobreviver. 




Objetivismo
A revolucionária filosofia racional, egoísta e capitalista de Ayn Rand


Antes de apresentar a filosofia Objetivista, eu devo explicar o que é filosofia e por que você deve se importar com ela. Em essência, a filosofia é o estudo da relação entre o homem e a realidade. Ela é formada por cinco áreas:

Primeiro, a metafísica, que é o estudo da natureza do universo como um todo. Ela faz perguntas do tipo: O que é a realidade? Como a realidade opera? Qual é a natureza das coisas?

A segunda área é a epistemologia, que é o estudo do conhecimento, da sabedoria. Ela questiona: como você sabe que você sabe? O que qualifica como conhecimento? Que testes uma ideia tem que passar por pa

ra você poder dizer “eu sei disto”? Você pode realmente saber de coisas? É possível ter certeza?

A metafísica e a epistemologia são as partes mais básicas da filosofia. Juntas, elas dão origem à ética, que é a questão central da filosofia.

A ética, ou moralidade, providencia um código de valores para guiar as escolhas e ações do homem. Ela pergunta como o homem deve viver, qual deve ser o objetivo de sua vida, o que é certo, o que é errado. Da ética, surgem duas áreas derivativas:

A política, que estuda a natureza da sociedade e a função própria do governo.

E a estética, que é a filosofia da arte. O que constitui uma obra de arte? O que faz uma arte boa ou ruim? Como estabelecer um critério?

A filosofia, portanto, te dá a relação do homem com a natureza, como ele sabe de coisas, como ele deve viver, e, então, como devem ser dois de seus mais importantes produtos: o governo e a arte.

Agora, a primeira coisa que você pode perceber deste assunto é que impossível escapar-se dele. Você pode ignorá-lo conscientemente, mas deste modo o seu subconsciente vai absorver dados do mundo a sua volta e formar visões sobre todas as perguntas acima.

Você pode ter ideias consistentes ou contraditórias, mas filosofia não é como física ou astronomia, matérias que você pode viver a vida inteira sem conhecer e não ter problema algum.

As questões filosóficas são centrais para um homem vivendo sua vida e, portanto, de alguma forma, você tem uma visão sobre todas.

Suponha, por exemplo, que você quer ter uma carreira. Você decide ser um médico hospitalar. Isto é bom, ou isto é ruim? Seu padre ou sua mãe te dizem que isto é muito egoísta. Afinal, tudo que você quer é dinheiro. O que você deveria fazer é virar um missionário como a Madre Teresa e ir para a África. Ou você deveria trabalhar em uma ONG. Você deveria ser altruísta. Você deveria se sacrificar pelos outros.

Qualquer decisão que você tomar será baseada em alguma ideia que você tem. Você pode ter uma visão inconsistente ou você pode fazer uma coisa e se sentir culpado por não estar fazendo a outra, mas não é possível escapar-se da pergunta “quem deve se beneficiar do seu trabalho?”

Mesmo que você tente escapar momentaneamente, dizendo, por exemplo, “Quem sabe as respostas para estas perguntas? Não existem verdades absolutas. Ninguém pode ter certeza de nada!”, esta será uma visão filosófica.

E se isto é verdade, como você estabelece o que você chama de conhecimento? Ou, então, quaisquer ideias que você tenha? Você pergunta para outros? Mas como os outros sabem no que acreditar? Eles pegam de Deus? Mas Deus oferece revelações diferentes para diferentes pessoas. Você vai por lógica? Mas o que é lógica? E se alguém disser “o que é lógico para você não é lógico para mim”? Você concorda com isto?

Enfim, você precisa ter alguma ideia ou você não conseguiria sequer deixar uma ideia entrar na sua cabeça.

Suponha que você diga: “eu não sei nada disto – 10 milhões de brasileiros não podem estar errados e eu vou seguí-los”. Bem, se 10 milhões de brasileiros não podem estar errados, não existe uma realidade objetiva – o que eles disserem irá determinar a natureza da realidade. Mas será que existe uma realidade? Se existe, 10 milhões de brasileiros podem estar errados – não é verdade?

O Objetivismo diz que, de alguma forma, todos têm uma opinião sobre estas perguntas, e isto molda a vida do homem, o seu caráter e a sua história.

Agora, sabendo o que é a filosofia, podemos começar a estudar o Objetivismo. Iniciaremos com a metafísica, o estudo da realidade.

Metafísica

O Objetivismo, na metafísica, começa identificando as verdades mais básicas e irrefutáveis sobre a natureza do universo. O nome destas afirmações é axioma, e o primeiro deles é: a existência existe.

Algo existe. Este algo não é nada esotérico – é tudo que você vê, tudo que é disponível aos sentidos. Tudo nos céus até as células do seu corpo. A soma disto é a existência, ou a realidade.

A lei básica da realidade é a lei da identidade, formulada primeiro por Aristóteles. Ela diz que A é A. As coisas são o que é elas são.

Se você quebra a sua perna em um esporte, não importa o quanto triste você ficar, você terá quebrado a sua perna. Isto é um fato. Você pode conseguir consertá-la posteriormente, mas nenhuma de suas emoções ou desejos irá mudar o fato de que sua perna foi quebrada.

Isto é verdade para todo fato, humano ou não. A realidade, sendo o que ela é, é independente da consciência, ou seja, objetiva. Então, se 10 milhões de brasileiros ou qualquer número, maior ou menor, quiser que algo seja verdade, este algo não será verdade só porque eles querem que o seja. Você pode desejar, querer, crer – sozinho ou junto com o resto da humanidade – mas isto não afetará a realidade.

A realidade é independente de qualquer consciência, seja esta a de homens ou a de um suposto ser sobrenatural que controla o universo. O Objetivismo é ateu, mas também a-unicórnio, a-papai-noel. Ele é contra todas as formas do sobrenatural – só do natural.

A lei que rege o mundo natural é a lei causal. As coisas na realidade operam por causa e efeito – cada uma atuando de acordo com a sua natureza. Não existem milagres, nem “sorte”, no sentido de eventos sem causa.

Não faz sentido rezar, porque não há ninguém para rezar para, e mesmo se alguém pudesse ouvir suas preces, ele não poderia fazer nada a respeito, porque as coisas são o que são e fazem o que fazem.

Tudo, inclusive os seres humanos, são sujeitos à causa e efeito. Uma forma de causa e efeito, no entanto, é o livre-arbítrio humano – o homem tem o poder de escolha, o poder de pensar ou não, e esta é a primeira causa em toda uma cadeia subsequente de outras causas.

Agora, entendendo o que é a realidade e como ela opera, podemos nos tornar à epistemologia, o estudo do conhecimento.

Epistemologia

O Objetivismo afirma, essencialmente, que a razão, isto é, a faculdade que identifica e integra os dados dos sentidos, é o único método de conhecimento.

A razão começa com a evidência dos sentidos – visão, audição, paladar, tato, olfato, etc. Eles são o único acesso do homem à realidade, e como todo conhecimento é um conhecimento sobre a realidade, os sentidos são necessariamente a base de todo conhecimento.

Existem muitos, especialmente hoje, que dizem que os sentidos são inválidos, que eles nos dão ilusões, que não podemos diferenciar os sentidos de alucinações. O Objetivismo denuncia todas estas crenças como exemplos da chamada falácia do conceito roubado. Qualquer pessoa, ao tentar negar explicitamente a validade dos sentidos, estará implicitamente afirmando sua validade – ao dizer que os sentidos são falsos, ela está assumindo que ele existe, que você existe, que as palavras que saem de sua boca são realmente as palavras que ela ouve sair, etc – tudo isto se baseando em seus sentidos. A validade dos sentidos é axiomática – todo conhecimento depende dela e qualquer tentativa de refutá-la é uma contradição.

Com base na observação sensorial, os seres humanos têm a capacidade única de formar conceitos, ou abstrações. Os conceitos são a nossa forma de organizar os dados sensoriais. A formação de um conceito é um processo de omissão de medidas – ele é formado pegando um número de entidades similares e decidindo o que as torna similar de uma maneira importante. Um homem, por exemplo, vê várias entidades compostas de uma superfície e suportes e, mentalmente, julga que estas são características essenciais e integra estas entidades no conceito de mesa.

Para colocar conceitos juntos, é necessário usar a lógica, que é o processo de identificação não-contraditória. Em essência, ela diz que você não pode ter seu bolo e comê-lo também. Nada pode ser A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo respeito.

Pensar logicamente é colocar os dados em um modo não-contraditório. Não podemos ter contradições porque estamos tentando conhecer a realidade e o princípio fundamental da realidade é que A é A – não há contradições na realidade.

Agora, o resultado de usar a razão como seu meio de conhecimento é que você pode confiar nas conclusões que chega. Você pode, no âmbito da evidência disponível, ter certeza sobre algo.

Assim, o Objetivismo rejeita o ceticismo, que é a ideia de que não há absolutos, ninguém pode ter certeza de nada, é tudo uma questão de opinião, ou, como os céticos amam dizer, “o que é verdade para você não é verdade para mim”. O ceticismo é, evidentemente, uma contradição em termos. Ele diz que sabe, que tem conhecimento… de que não há conhecimentos.

O Objetivismo afirma o oposto: toda verdade é absoluta, mas você há de usar a razão para chegar a ela. Desta forma, ele também rejeita o misticismo, que é a doutrina que diz que há verdades, mas você só precisa que se expor passivamente para o mundo que ela vai se escrever em você. O misticismo diz que você pode dispensar com os sentidos, a lógica, a argumentação. Ele diz que você tem, de alguma forma, acesso direto ao conhecimento através da fé, revelação, intuição, telepatia, etc.

O Objetivismo diz, em contrapartida, que a verdade está na relação adequada entre a mente e a realidade, entre a consciência e a existência. Você tem que olhar para fora para obter a verdade, mas você não pode simplesmente esperar um dogma bater na sua cabeça.

Você só pode obter verdades usando o método correto, e este método é a observação, a formação de conceitos, a lógica – ou seja, a razão.

Ética

Agora que chegamos na ética, é preciso seguir as nossas bases filosóficas, isto é, a metafísica e a epistemologia. Esta última diz que conseguimos conhecimento através da razão, e isto se aplica a todo conhecimento, incluindo conhecimento sobre moralidade.

A ética, portanto, não pode ser baseada em desejos, sejam estes de um indivíduo, da sociedade ou de um suposto deus. Hoje, a ética se resume a isto: um lado diz que Deus deu revelações e o outro que a sociedade deve determinar como o homem há de viver. O Objetivismo rejeita estas duas teorias porque elas não reconhecem o absolutismo da realidade e da razão.

Para começar uma ética racional, a primeira coisa que se deve fazer é perguntar: o que na realidade dá origem à etica? Por que ela é necessária?


Para saber disto, é preciso antes entender o que é ética. A ética é um código de valores que guia as escolhas e as ações do homem. (A ética só se refere ao homem porque ele é o único animal que tem livre-arbítrio; portanto, é o único que pode tomar decisões.)

É necessário, no entanto, ir mais a fundo na definição de ética. É preciso perguntar: o que são valores? Um valor é algo que você age para ter e/ou ganhar. Valor não é um conceito primário; ele pressupõe a resposta para a pergunta: valor para quem e o para o quê? Ou seja, algo só pode ser um valor para alguém com algum objetivo.

A água, por exemplo, não é um valor intrínseco, em si mesmo. Ela é, no entanto, um valor para o homem para seu corpo conseguir controlar sua temperatura. Ter uma temperatura estável é um valor para o homem para ele permanecer vivo.

Valores só podem existir para seres vivos diante de uma escolha – onde não há decisões, não há valores ou moralidade. Para todo ser vivo, existe somente uma escolha primária: a vida ou a morte – tomar ações requeridas para promover sua vida ou ações que a destroem. É importante notar que só indivíduos são confrontados com a escolha de vida ou morte. A sua escolha é: a sua vida ou a sua morte.

A escolha da vida sobre a morte é uma decisão pré-moral. Ela não pode ser julgada como certa ou errada, mas caso um homem escolha a vida, seu objetivo final ou padrão de valor há de sê-la – a vida é o único valor que é um fim em si mesmo e sem ela, nenhum outro valor é possível.

A sua vida como o padrão de moral significa que tudo que a promove é o bom, e tudo que a destrói é o ruim. Todas as questões morais, portanto, são questões de como viver com sucesso e felicidade, e todos os princípios morais devem ser avaliados de acordo com a sua capacidade de promover a vida do homem.

A função da ética é descobrir o que é requerido pela natureza da realidade para o homem viver na Terra. A ética deve providenciar valores e virtudes (isto é, ações que resultam no ganho de valores) para guiar a vida do homem. Para fazer isto, ela precisa examinar a natureza do homem.

O ser humano não é particularmente rápido ou forte. Ele não tem dentes ou patas afiadas. Ele tem, entretanto, um específico e superior método de sobrevivência: a razão. Tudo, no mundo, que é bom, que beneficiou a vida do homem – a agricultura, o prédio, o remédio, o computador – é resultado da razão. Todos os desastres não-naturais, em contrapartida, são consequência de indivíduos que a abandonaram.

A racionalidade, sendo o reconhecimento de que a razão é o único método de conhecimento, o único julgador de valores e o único guia de ação do homem, é a virtude básica do homem. A razão permite que o homem pense a longo prazo. Ela permite que o homem adapte o ambiente a ele. Ela permite que o homem atue de acordo com a realidade e atinja seus objetivos.

Todas as outras virtudes são meios de aplicar a razão e, portanto, atingir a vida. Abaixo, estão as seis principais virtudes derivativas reconhecidas pelo Objetivismo:

Independência, a aceitação da responsabilidade e da necessidade de formar seus próprios julgamentos e viver do seu próprio trabalho.


Integridade: a lealdade aos princípios, a prática do que um acredita ser certo. Como é possível chegar a princípios certos com a razão, a prática de coisas boas irá beneficiar a sua vida.

Produtividade: a virtude de atingir valores. Embora o uso de produtividade tipicamente se refere à produção de riquezas, aqui a palavra também inclui o ganho de outros valores, como relações com amigos ou amantes.

Honestidade: a rejeição de falsificar a realidade de sua existência de qualquer maneira, seja para si mesmo ou para outros.

Justiça: a virtude de tratar pessoas de acordo com as suas ações – a aplicação da lei da identidade às pessoas. A justiça é em seu interesse pois encoraja bom comportamento na parte de outros e evita que você tenha que lidar com pessoas más ou perigosas.

Orgulho: o respeito a si mesmo. Sem ele, você não teria razão para confiar em sua habilidade para viver. Você não teria razão para aceitar que vale a pena viver.

Vivendo de acordo com a racionalidade e estas outras virtudes, o homem é capaz de atingir uma vida próspera e feliz, que é o seu propósito moral.

O nome da teoria ética Objetivista exposta acima é egoísmo racional.

Hoje, infelizmente, os pensadores dizem que você é um altruísta se sacrificar-se pelos outros e um egoísta se sacrificar os outros por você. O Objetivismo rejeita os dois lados dessas dicotomia. Uma ética realmente egoísta não envolve sacrifícios, mas cada um vivendo em sua função e respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.

Existe outra dicotomia que hoje é entendida como evidente mas é negada pelo Objetivismo: a divisão entre o moral e o prático. “Devo ser prático ou devo ser ético?”, muitos se questionam. “Como fazer para ser prático e ético ao mesmo tempo?”

Estas perguntas, é claro, só surgem porque o altruísmo, a teoria ética predominante de nossa sociedade, define o sacrifício como o ideal e o moral. Na verdade, estas perguntas são contraditórias, porque como, propriamente, a vida do homem é o seu padrão de moral, o ético há de ser o prático – afinal, ele é o que promove a vida!

Política

A política é a principal aplicação social da ética. Ela estuda a organização da sociedade e a relação do indivíduo com o governo.

Na política, assim como em todos os outras áreas, é preciso partir do zero. Devemos perguntar por que o homem necessita de um governo e o que ele deve fazer.

A ética nos diz que cada homem é um fim em si mesmo e necessita da razão para sobreviver. A sobrevivência através da razão requer a liberdae de cada indivíduo de atuar de acordo com o seu julgamento. Só há, basicamente, uma maneira de violar esta liberdade: com a iniciação da força, isto é, com um homem iniciando agressão física (como assassinato, roubo, ameaças ou fraude) contra outro.

Para que o homem possa viver e prosperar, a iniciação da força deve ser banida da sociedade; para isto, os direitos de cada indivíduo devem ser reconhecidos e protegidos.

Um direito é um princípio moral definindo e sancionando a liberdade de ação do homem em um contexto social. O direito fundamental é o direito à vida – todos os outros são corolários deste. A vida é o processo de ação sustentada e gerada pelo próprio ser; o direito à vida quer dizer o direito de cada homem de tomar as ações e usar o seu corpo para sustentar a sua vida.

O primeiro direito derivado de o direito à vida é o direito à liberdade, de estar livre dos outros para poder pensar e atuar. O outro é o direito à propriedade, que não é o direito a uma específica propriedade física, mas o de poder ter e usar a propriedade que você adquire com o seu esforço. Ele não é o direito a uma casa ou a um carro, mas o de poder viver na casa que comprou e de poder vender o carro que fabricou.

Estes direitos são inalienáveis – todo homem os tem e nenhum homem ou grupo de homens, sejam estes dez pessoas ou 51% da população de um país, pode violá-los.

O sistema sócio-econômico ideal é aquele que reconhece e protege os direitos do indivíduo, e o nome deste sistema é capitalismo. Capitalismo não quer dizer a economia mista que temos hoje, que é basicamente uma mistura de liberdades e controles, de capitalismo e socialismo. O capitalismo que o Objetivismo advoga é o capitalismo puro, laissez-faire – a completa separação entre governo e economia.

Em uma sociedade capitalista, o governo tem três órgãos: o exército, para proteger o país de agressores estrangeiros; a polícia, para defender os indivíduos de bandidos domésticos; e o sistema judiciário, para julgar criminosos e resolver disputas entre cidadãos.

Nesta sociedade, não haveria regulamentos sobre a produção ou restrições sobre o comércio. Toda propriedade seria privada – realmente privada. Isto implica que não haveria impostos – todas as contribuições para o governo (que não gastaria um décimo do que ele gasta hoje) seriam voluntárias. A proibição do aborto, do jogo, das drogas seriam abolidas, assim como qualquer limitação sobre a liberdade de expressão.

O pouco de capitalismo que tivemos nos últimos 200 anos resultou no maior boom de desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida já visto na história. A evidência é inquestionável – é só comparar a Coréia do Sul com a do Norte, os Estados Unidos com a União Soviética ou a Alemanha Ocidental com a Oriental. O fato é que o grau de liberdade econômica de um país está diretamente relacionado ao seu grau de prosperidade.

Mesmo assim, aqueles que dizem querer ajudar os pobres são os que mais criticam o capitalismo. Como Ayn Rand brilhantemente disse, o bem-estar do homem não é objetivo deles.

Citando Rand: “A justificativa moral do capitalismo não reside na alegação altruísta de que ele representa a melhor maneira de promover ‘o bem comum’. É verdade que o capitalismo o faz, mas isto é apenas uma consequência secundária. A justificativa moral do capitalismo reside no fato de que ele é o único sistema em consonância com a natureza racional do homem, que ele protege a sobrevivência do homem enquanto homem, e que seu princípio dominante é a justiça.”

Estética

Agora, vamos nos tornar a outro importante produto do homem: a arte. A arte é uma recriação seletiva da realidade de acordo com os julgamentos metafísicos e éticos do artista. Ela expressa o senso de vida do artista, isto é, suas convicções mais profundas sobre o mundo e o homem.

Muitos dizem, hoje, que a função da arte é a apreciação do belo, sem especificarem o que é o belo e por que você deve apreciá-lo. Outros nem chegam a este ponto: proclamam que a arte não tem função alguma. Alguns deles vão mais longe: dizem que a própria definição da arte é aquilo que, para o homem, não tem propósito.

O Objetivismo, em contrapartida, afirma que o homem necessita da arte porque ela passa as ideias mais abstratas do homem para o concreto, o físico.

Um conceito simples, baseado na percepção, como o de mesa ou o de computador, não precisa ser concretizado pela arte. É possível apontar para uma mesa e dizer: é disso que estou falando. O mesmo não é verdade para abstrações mais complexas, como o amor ou a coragem. Estes conceitos não têm o imediatismo daqueles baseados diretamente na percepção.

A arte é o instrumento que torna possível a observação de abstrações complexas. Ela deixa o homem examinar uma ideia como algo concreto e, então, melhor entender o que o conceito significa na prática.

Uma boa arte deve mostrar como o mundo pode ser e deve ser. Como o mundo pode ser porque as coisas são o que elas são e não faz sentido ficar pensando em uma fantasia como um mundo mágico ou um que tenha vampiros. Como o mundo deve ser porque a arte, sendo a ferramenta que permite a concretização de abstrações, pode deste modo servir de inspiração e combustível para o homem viver e atingir objetivos.

Na pintura, isto quer dizer a exposição da beleza e do potencial do homem, ao contrário da mistura randômica de cores e traços que os modernistas de hoje chamam de arte. 

Na música, ritmo e melodia. Na literatura, histórias com heróis movidos por valores e um enredo composto de eventos lógicos, como os romances de Victor Hugo ou da própria Ayn Rand.



Obras: Romances: We the Living (1936) The Fountainhead (1943, traduzido para o português como ‘A Nascente’) Atlas Shrugged (1957, traduzido para o português como ‘A Revolta de Atlas’) Outras obras de ficção: Night of January 16th (1934) Anthem (1938) Não-ficção: For the New Intellectual (1961) The Virtue of Selfishness (1964) Capitalism: The Unknown Ideal (1966) The Romantic Manifesto (1969) The New Left: The Anti-Industrial Revolution (1971) Introduction to Objectivist Epistemology (1979) Philosophy: Who Needs It (1982)




quinta-feira, 29 de março de 2012

"Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra" (Carlos Drummond de Andrade)




Uma pedra nasce e cresce de fora para dentro, num processo que leva milhões de anos. Ela se encontra aquietada, dentro de seus limites, naquilo de que é constituída, tendo como característica a sua rigidez. Uma flor, mesmo que seja inspiração para as mais belas poesias, também manifesta um movimento limitado e suas pétalas podem vir abaixo por alguém que queira verificar se "o bem" ou se "o mal lhe quer". Já o ser humano não se aquieta no constituído e nem nos próprios limites. Ele se coloca como um projeto num processo de crescimento que se dá de dentro para fora, ao mesmo tempo em que os condicionamentos culturais e sociais do espaço e do tempo constituem para ele uma camisa de força para que seja moldado de acordo com os padrões existentes. Diz Erich Fromm que "O homem era - e ainda é - facilmente seduzido para aceitar determinada forma de ser humano como sendo a sua essência. Mas a essência do ser humano não se define pela sociedade com a qual se identifica. Os grandes homens e mulheres foram aqueles que visualizaram algo que é universalmente humano". [1] Na sociedade grega da era clássica, em que se buscava uma auto-compreensão fundamentada na razão, o ser humano passou a ser entendido como Homo sapiens, ou seja, aquele que ultrapassa o nível do senso comum, das opiniões enganadoras, para chegar ao conhecimento das coisas como elas realmente são. Já a busca de uma auto-compreensão da sociedade moderna em seu nascedouro se fundamenta no conhecimento fundado na experiência do que é tangível, manipulável, ou que esteja ao alcance dos sentidos. O ser humano moderno, no afã de fazer coisas, de se apropriar delas e de acumulá-las, chegou a definir a sua essência pela sua atividade industriosa, transformando-se noHomo faber. Mas, considerando-se que a sociedade industrial dos dois últimos séculos, que estabeleceu a globalização como meio eficaz para estabelecer o mercado de consumo, criou como mecanismo de controle da mão-de-obra um exército imenso de desempregados ou de pessoas que não se situam na esfera do mercado, a essência do ser humano não pode ser o que ele faz, nem mesmo no âmbito da sociedade industrial, visto que, dessa forma, a maioria dos povos da África, Ásia e América Latina estaria excluída dessa noção de humanidade. As sociedades antigas e medievais formavam uma totalidade em que os indivíduos, integrados nos sistemas sociais existentes, nem sequer se percebiam como tais, uma vez que a consciência que se podia ter era a de uma existência associada à grande família, à religião, às normas estabelecidas e que muitas vezes eram vistas como de ordem natural ou divina. Já os teóricos liberais fazem da individualização do ser humano um dos fundamentos da sociedade moderna, juntamente com a propriedade, a liberdade, a igualdade e a democracia. Mas ao mesmo tempo esses teóricos escondem o fato de que a essa noção de humanidade não diz respeito à maioria dos indivíduos dessa sociedade, formada por aqueles que trabalham sem ter para si a recompensa proporcionada pelos frutos desse trabalho, que vão cair nas mãos de grupos que deles se apropriam e deles fazem seus instrumentos de poder. A sociedade contemporânea é uma sociedade onde as ideologias buscaram camuflar a verdadeira essência do ser humano. Segundo Hannah Arendt, "... o pensamento ideológico emancipa-se da realidade que percebemos com os nossos cinco sentidos e insiste numa realidade 'mais verdadeira' que se esconde por trás de todas as coisas perceptíveis, que as domina a partir desse esconderijo e exige um sexto sentido para que possamos percebê-la". [2] Este sexto sentido é fornecido pela doutrinação ideológica presente nas instituições educacionais e particularmente nos meios de comunicação de massa, em que se faz de tudo para "libertar o pensamento da experiência e da realidade" procurando sempre injetar um "significado secreto" em cada evento público e farejar "intenções secretas" atrás de cada ato político, de tal forma a fazer acreditar que aquilo que se diz da realidade seja o que realmente é. E a tendência dos indivíduos, perdidos no meio da massa, é deixar-se conduzir pela maioria, escondendo-se atrás de uma essência que não lhes pertence, uma vez que é determinada pelos condicionamentos socioculturais. Jung explica tal fenômeno com as seguintes palavras: "O movimento de massa resvala, como se pode esperar, do alto de um plano inclinado estabelecido pelos grandes números: a pessoa só está segura onde muitos estão; o que muitos acreditam deve ser verdadeiro; o que muitos almejam deve ser digno de luta, necessário e, portanto, bom; o poder se vê forçado a satisfazer o desejo de muitos. Mas o mais belo mesmo é escorregar com leveza e sem dor para a terra das crianças, sob a proteção dos pais, livre de qualquer responsabilidade e preocupação. Pensar e preocupar-se é da competência dos que estão lá no alto; lá existem respostas para todas as perguntas e necessidades. Tudo o que é necessário encontra-se à disposição. Este estado onírico infantil do homem massificado é tão irrealista que ele jamais se pergunta quem paga por esse paraíso. A prestação de contas é feita pela instituição que se lhe sobrepõe, o que é uma situação confortável para ela, pois aumenta ainda mais o seu poder. Quanto maior o poder, mais fraco e desprotegido o indivíduo". [3] A massificação, ainda segundo Jung, abre o caminho para a tirania, que se sente mais livre na escolha de seus métodos do que a instituição que tem que dar explicações ao indivíduo. Com a tirania, sempre imoral e perversa, a liberdade do indivíduo se transforma em escravidão física e espiritual. Indivíduos que promovem a tirania são imaturos e fazem da força seu mecanismo de defesa. Às vezes eles cedem diante da pressão dos grupos que defendem a cidadania, ou seja, a emancipação dos indivíduos, mas buscando sempre canalizar as consciências dos indivíduos para o âmbito das massas, para que eles não tenham pensamento próprio e façam de seu pensamento uma continuidade daquilo que já está posto e determinado de cima para baixo. A realidade é, contudo, dinâmica e o seu dinamismo se explica pelo fato de que por trás de cada indivíduo, há um ser humano que, pela sua natureza, é um ser que se lança a caminho, sempre irrequieto, em busca da realização de seus desejos. Se a realidade é desfavorável aos indivíduos e lhes apresenta barreiras que lhes parecem intransponíveis, a tendência desses indivíduos é caírem num estado de frustração, desespero, agressividade. Mas também podem despertar a sua consciência adormecida e encontrarem na esperança, que é um dos elementos essenciais da humanização de nosso ser, a força para viver e construir um mundo novo, sabendo que, para essa construção terá de enfrentar a realidade presente que é o seu ponto de partida. Pois, como diz Ralph Linton: "Durante a vida do indivíduo jamais termina o processo da criação e integração das novas reações e de extinção das antigas. Sem essa flexibilidade seria impossível ao indivíduo sobreviver em um mundo em que tanto o meio ambiente externo, como as suas próprias potencialidades se encontram em constante fluir". [4] O amadurecimento do ser humano consiste na descoberta e na vivência de sua verdadeira essência que está na integração de suas dimensões física em que se situam os cinco sentidos;intelectiva, pela qual se chega à compreensão do âmago das coisas; espiritual, que nos abre para o transcendente e nos possibilita acolher as imperfeições e limitações de nossa vida para remetê-las à totalidade; e social, que nos coloca, desde o nascimento, em relações com os demais seres humanos, dando-nos a consciência de que não podemos viver isolados e de que a nossa sobrevivência depende, e muito, dessas relações com os nossos sócios. Na maioria das vezes essa relação que se dá na vida em sociedade é conflitiva. Mas é nas situações de conflito que nos colocamos diante dos limites de nossa humanidade para poder superá-los e assim chegarmos ao amadurecimento individual e social.



 [1] Erich FROMM. A revolução da esperança. Rio de Janeiro, Zahar, 1969. Pág. 71. [2] Hannah ARENDT. Origens do totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. Pág. 522-523. [3] Carl Gustav JUNG. Presente e futuro. Petrópolis, Vozes, 1988. Pág. 27. [4] Ralph LINTON. Cultura e personalidade. São Paulo, Mestre Jou, 1979. Pág. 119.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A essência do capitalismo



Muitas vezes ficamos perplexos diante dos inúmeros problemas sociais que encontramos à nossa volta: fome, miséria, falta de moradia, doenças endêmicas, prostituição, violência, marginalidade etc. Também nos impressiona o egoísmo e individualismo, a maneira de viver das pessoas, não se importando umas com as outras, a solidão de muitos, a obsessão pelo dinheiro de outros, a busca do TER acima de tudo, a exploração, a corrupção, e assim por diante. A impressão que se tem, frequentemente, é que as pessoas não existem mais como pessoas e sim como meros objetos. Isto nos deixa confusos e parece ser uma situação sem saída. Parece que a miséria sempre existiu e que se trata de um fenômeno inextinguível. Apela-se, então, para a bondade das pessoas: que sejam caridosas e ajudem aos outros.


Atingimos, desta forma, apenas as consequências mas não as causas do problema. Parece que há uma máquina fabricando sempre novos miseráveis, novos “doentes”. Parece que o amor é uma força que nunca consegue se impor, que os homens preferem se odiar. Mas, o que é que gera a miséria?
O que é que torna as pessoas obcecadas pelo dinheiro? O que faz com que o egoísmo predomine?

Para compreendermos esta problemática, precisamos ir às causas, precisamos analisar o sistema social e econômico em que vivemos - o sistema capitalista - o seu funcionamento, seus pressupostos e sua essência para verificar se não há relação de causa e efeito.

CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DO SISTEMA CAPITALISTA

No sistema capitalista, a busca do LUCRO ocupa o lugar central. É o objetivo do sistema e sua razão de ser. Sem lucro, não existe capitalismo. O objetivo do sistema não é a pessoa, em primeiro lugar, mas o capital, que deve gerar capital - lucro. Mas o que é o lucro e como é obtido? Apesar de ninguém gostar de reconhecer (especialmente os que dele se nutrem), só é possível conseguir lucro através da exploração do ser humano. De onde mais poderia vir? Direta ou indiretamente, há exploração (do trabalho humano, em última instância). A maioria dos homens (os trabalhadores) são transformados por outros apenas em energia produtiva. Produzem, mas não recebem o que realmente produziram. Recebem uma parcela - o salário - que é a quantia mínima necessária para que subsistam e se reproduzam. Para onde vai o excedente produzido? Para as mãos dos que os empregam - é o lucro. Este mecanismo já foi explicado por Marx, no século passado (teoria da mais-valia, em “O Capital”): Se a quantia mínima necessária para sobreviver eqüivale a quatro horas de trabalho diário e se de fato a jornada foi de oito horas, isto significa que quatro horas foram trabalhadas de graça para o empregador. Este excedente (mais-valia) é que é o lucro. Assim sendo, a força de trabalho produz: o salário, mais o excedente. O salário fica com o trabalhador, o excedente é o lucro do patrão que, por conseqüência, aumenta seu capital enriquecendo sempre mais.


Mas, o que permite esta exploração?

A exploração é possível porque existe a PROPRIEDADE PRIVADA DOS MEIOS DE PRODUÇÃO (mais conhecida como propriedade privada, simplesmente). Os donos são os proprietários dos bens que permitem a produção de outros bens (indústrias, terras, grande comércio, equipamentos, capital financeiro etc.).Os trabalhadores, como não têm meios de produção e apenas sua força de trabalho, para sobreviverem, só lhes resta venderem sua força de trabalho consoante a lei da oferta e procura. Não têm outro meio de vida senão oferecendo sua mão-de-obra aos donos dos meios de produção. Estes, lhes pagam o salário, por serem os donos. Exemplo (da agricultura): numa determinada fazenda, o dono aluga a terra para dez camponeses; estes, como pagamento, deverão dar a metade da colheita para o dono. Mesmo que o dono da terra não toque nela, poderá tornar-se rico, pois levará cinco colheitas inteiras por ano, pelo simples fato de ser “dono” da terra.


Se a terra pertencesse não a um dono, mas àqueles que nela trabalham, isto não ocorreria. Em outras palavras, se a propriedade dos meios de produção não fosse particular e sim social, coletiva, a riqueza produzida pertenceria a todos e não apenas a um grupo (como acontece agora: a riqueza ficando com os proprietários particulares dos meios de produção.

Assim se explica a origem das grandes desigualdades sociais, ou seja, porque existem ricos e pobres.

Os donos e os trabalhadores se constituem, então, em duas classes sociais distintas que se opõem não por uma vontade natural, mas simplesmente porque os seus interesses são antagônicos. A riqueza de um país vai se concentrando cada vez mais nas mãos de uns poucos (os donos) enquanto aqueles que a produziram (os trabalhadores) se vêem sempre na situação de pobreza. O desenvolvimento econômico se dá em benefício não de todos, mas de apenas uma classe: a dos proprietários. Por este motivo é que pode acontecer o estranho fenômeno de grande desenvolvimento econômico ao lado da miséria. Portanto, não desenvolvimento social. Isto porque este desenvolvimento econômico, de uma classe, se faz a partir da exploração dos demais que empobrecem.

Conclui-se também ser impossível que estas classes se amem, pois uma vive da miséria da outra: para haver amor entre elas seria preciso primeiro acabar com a exploração.

Neste sentido, nunca podemos falar propriamente em salário justo. No máximo podemos falar em salário que possibilite melhores condições de vida para o trabalhador. Todo o salário é necessariamente injusto (a massa salarial), visto que significa o pagamento de apenas uma parte daquilo que o trabalhador produziu e, portanto, a usurpação do restante (roubo legalizado). Este não é fruto da má sorte ou falta de qualificação do trabalhador. É uma fórmula criada para manter os salários sempre relativamente baixos, de modo que os lucros sejam altos. Assim se explica porque mesmo nos países capitalistas desenvolvidos como Estados Unidos exista desemprego.

Para obter seus lucros, os empresários precisam ter campo de ação livre, devem ter uma margem de opção de qual o produto que querem produzir, qual o produto que rende mais. Por isso o sistema se estabelece à base da LIVRE INICIATIVA (liberalismo). É no mercado, isto é, no campo em que se dão as compras e as vendas, que entra a livre concorrência. Essa competição é essencial para que se mantenha a livre iniciativa: cada empresário entra no mercado com o produto que mais lhe convier. Por exemplo: ele monta uma fábrica de sabonete, mesmo que haja uma dezena delas. Entra e começa a competir com as outras conforme as vantagens ou desvantagens, sobretudo dinheiro. Poderá falir ou se manter e levar outras à falência com o conseqüente desemprego dos trabalhadores.

Portanto, desde o princípio, o capitalismo se desenvolve como conflito entre explorados e exploradores e conflito entre os próprios exploradores.

Para obter lucros é preciso produzir e vender. Para vender é necessário fazer comprar. Trata-se então de tornar o homem um permanente CONSUMIDOR, um ser-para-ter. É preciso que o homem sinta a necessidade de comprar sempre mais. Por isso se constrói e se propaga um ideal de homem que contém esse elemento essencial. Faz-se de modo sutil: divulga-se que o homem realizado é o que vive de conforto, de bem-estar material, através da aquisição de bens.

Esta é a imagem do ser humano ideal que está por trás e pela frente de toda propaganda, dos meios de comunicação e de toda a vida de hoje. Tanto ricos como pobres vivem comprando e sentindo a necessidade de comprar mais para se sentirem melhor e bem situados. É assim que eles pensam viver a vida em plenitude. O mais importante é atingir a consciência das pessoas para convencê-las deste ideal. Não só isso: o sistema se encarrega de tornar impossível viver de outra maneira. Quando se lança uma nova moda, por exemplo, as pessoas se sentem obrigadas a acompanhá-la, por mais ridícula que pareça, por mais incômoda ou cara que ela seja.

AS CONDIÇÕES DE MANUTENÇÃO DO SISTEMA

Eis aí um grande enigma, aparentemente: como é que um sistema sócio-político-econômico, tão anti-humano (contrário aos valores humanos essenciais e transcendentais), consegue se manter e prosperar? Perdurar por tanto tempo e se tornar absoluto?

Vamos analisar a questão da maneira mais simples e compreensível, enfatizando os pontos nevrálgicos da questão.

O ESTADO

Um dos fenômenos que confunde muito as pessoas é o aparelho governamental, o Estado. Aparentemente, o Estado é uma instituição que se coloca acima dos ricos e dos pobres e procura fazer cumprir a lei para todos, com justiça. 0 que as pessoas às vezes não entendem é por quê podem ocorrer tantas injustiças sem que o governo intervenha. Será que o governo não vê ou não sabe destas coisas? Por que gasta tanto em projetos gigantescos e com a burocracia do Estado? Por quê não atende e não dá prioridade às necessidades básicas da população?

O que tais pessoas não perceberam ainda é que o Estado não está acima das classes sociais. 0 Estado é a própria classe rica, a classe economicamente dominante, no poder.. No sistema capitalista quem tem o poder econômico, tem o poder político; embora pareça, não há diferença entre eles.

0 governo representa os interesses dos donos dos meios de produção, isto é, dos industrialistas, dos grandes comerciantes, dos banqueiros e dos latifundiários. Isto não depende do indivíduo que está no poder, de sua formação familiar, de seu temperamento. Qualquer que seja o indivíduo, ele fará o que as classes abastadas querem, inclusive porque foram elas que o levaram até este cargo (ajuda financeira, propaganda eleitoral - em caso de haver eleições, é claro).

Se por acaso ele tentar mudar alguma coisa, ou quiser colocar o aparelho estatal a serviço dos pobres, em pouco tempo, é afastado ou morto - renúncia, doença, etc.

AS LEIS

A legislação que, aparentemente, visa o bem comum, favorece, na realidade, os ricos, levando-se em consideração que é feita por seus representantes, 0 poder legislativo - o parlamento, deputados, senadores - é um poder que representa basicamente os interesses das classes dominantes. Quem é eleito? Quem tem dinheiro para fazer propaganda. Isto já exclui os operários e camponeses. Quem vota? Os analfabetos dificilmente votam. A população, exatamente a mais pobre e a mais explorada, não tem como participar da vida política. O que legisla esse Parlamento? As leis e os projetos que interessam aos ricos. 0 exemplo primeiro é fundamental. É que esta legislação torna legal o roubo, a exploração; é ela que estabelece que as pessoas podem ter a propriedade privada que quiserem as fortunas que desejarem e puderem (bem ou mal havidas) e que estão desobrigadas a pagar ao trabalhador mais do que o salário mínimo. Isto está estabelecido em lei. A quem serve isto? Só às classes dominantes. Mesmo aqueles itens da legislação que aparentemente colocam em pé de igualdade ricos e pobres deixam na obscuridade uma realidade fundamental: por mais que algo seja escrito no papel, o dinheiro é a mola capaz de mover as coisas. Assim, os poderosos sempre estão em vantagem sobre as classes subalternas. Não há igualdade de condições quando não existe igualdade econômica.

O EXÉRCITO E A POLÍCIA

O que distingue o aparecimento do Estado na historia é a constituição de uma força pública especial, distinta da massa dos cidadãos. Antes todos tinham armas. Agora só esta força dispõe delas. Ela é formada para servir o Estado. Por mais que seus membros provenham das classes pobres, o exército e a polícia agem como instituições do Estado. São carreiras de Estado. Representam pois os interesses das classes ricas. Existem para oprimir as classes pobres, seja de forma latente, seja efetivamente, quando estas, não suportando a exploração procuram exigir seus direitos.

Nunca se viu estas instituições prendendo patrões, exigindo participação nos lucros das empresas ou aumentos salariais para os operários. 0 que se vê sempre é a repressão dos operários, a prisão daqueles que criticam o regime de injustiça. As forças armadas existem para manter o povo submisso e quieto. Porque seria impossível para a classe patronal explorar o trabalho das massas sem a força pública na retaguarda. Só com a violência institucionalizada é que conseguem realizar a exploração. Se outrora a escravidão só se mantinha às custas da vigilância e da chibata, a exploração atual só se mantém às custas de uma legislação opressora e de uma força armada para garantir o seu cumprimento. A violência pertence à essência do capitalismo: esta é a violência institucionalizada, legal.

Além disso, a policia, por exemplo, é uma instituição muito corruptível. Dotados do poder de vida e morte, de prisão ou liberdade sobre os cidadãos, os policiais se sentem investidos de um poder praticamente ilimitado. Daí, facilmente explorarem os marginais, a prostituição, o tráfico de drogas, o contrabando etc.


A TRIBUTAÇÃO

Dado que a riqueza produzida pelos trabalhadores vai para as mãos dos patrões, e não para os serviços do bem comum, o Estado precisa de outra fonte de renda: os impostos. Cada cidadão paga em todo o objeto que compra, em todo o objeto que possui, um imposto. Assim o trabalhador, além de ver o produto do seu trabalho ser retirado de suas mãos (o excedente), vê a cada dia seu salário ser expropriado nas suas compras e nos seus gastos (até na luz, água, etc.), impostos estes que são aplicados pelo Estado a serviço principalmente das classes ricas. Há, por exemplo, também outras formas de imposto indireto: loteria esportiva. Diante da falta de recursos, as classes pobres gastam o pouco que lhes resta na loteria, com a finalidade de tentar sair sua difícil situação. E mais uma parte de seu salário é expropriado.

A JUSTIÇA

A justiça aparentemente é universal, assim como as leis. Porém, como vimos, é o dinheiro que faz movimentar as coisas e as pessoas, Deste modo, os ricos, com seu dinheiro, seu prestígio social estão sempre em grande vantagem sobre os pobres. Dificilmente o pobre consegue ganhar uma causa contra os ricos. A corrupção é freqüente nos meios judiciários. As pressões existem para os marginais, as prostitutas e para os pobres. E não conseguem sequer por em pratica o que a legislação exige delas em teoria: a recuperação dos marginais, porque as prisões são o grande meio de vida para suas administrações.

0 dinheiro fornecido pelo Estado vai encher os bolsos dos que prestam serviços às prisões. E o próprio sistema penitenciário se encarrega de deformar, destruir e marginalizar ainda mais estes indigentes. Nos meios judiciários diz-se que a escala de crime se divide em três etapas: o curso primário são os recolhimentos de menores, o secundário são as casas de detenção e o universitário são as penitenciárias.

A IDEOLOGIA

Para conseguir manter a exploração, para a classe dominante conseguir impor o sistema às demais classes sociais, não basta a força armada. Ela precisa fazer com que as pessoas se convençam de que este sistema é bom, de que não há outro possível (atualmente já demonstrado pelo fracasso do comunismo...), de que o modo certo de trabalhar é assim, que é justo que o patrão fique com a maior parte da produção, etc. 0 conjunto das idéias e atitudes morais e religiosas, jurídicas, políticas, e filosóficas que, na sociedade, firma os indivíduos em seus papéis, em suas funções e relações sociais - chama-se ideologia. Essas idéias formam um sistema cultural que justifica e faz aceitar como natural a situação em que se vive. A ideologia tem a função de adaptar os homens à sociedade em que vivem. Ela penetra de tal modo nas pessoas que se a exploração permanece, é porque as pessoas passam a encarar esta situação como normal, ou seja, não percebem que são exploradas e oprimidas.

Alguns exemplos dessas idéias:

O egoísmo é natural ao homem. A agressividade e a violência fazem parte da psicologia humana: é por isso que há guerras, crimes etc. O trabalhador manual vale menos que o trabalhador intelectual. Haverá sempre necessidade de homens que trabalhem e outros que estudem, homens que dirijam e homens que sejam dirigidos por aqueles, portanto haverá sempre ricos e pobres. Até o próprio Jesus Cristo disse: "pobres sempre tereis entre vós". Portanto, para quê tentar mudar? É bom ser pobre na terra, pois assim serei feliz no céu...Etc.

Alguns exemplos de atitudes: o registro quase sagrado à lei e à autoridade; o complexo de inferioridade dos pobres diante de um intelectual; a honestidade como meio de impedir que os pobres exijam mais, etc.

Como se vê, são ideias e atitudes que impedem qualquer possibilidade de transformação social. Esses conceitos impedem o desenvolvimento de nossa cultura e de nossa evolução para uma sociedade mais humana.

A classe dominante, o Estado, tem vários meios para fazer penetrar estas ideias nas pessoas:

- os meios de comunicação,

- a propaganda,

- a religião,

- a família e

- a própria vida diária.

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

São fundamentais para transmitir a ideologia capitalista: a comunicação pela televisão, pelo rádio, pelos jornais e revistas. Por esta mídia é que vão sendo transmitidas todas as idéias básicas, isto é, as idéias que ajudam a conservar e incrementar a ideologia. A idéia de que o trabalhador manual tem menos valor que o trabalhador intelectual, por exemplo, é muito comum. As pessoas acabam aceitando como natural que o trabalhador que faz serviços pesados tenha pouco valor (e, portanto, pouco dinheiro para satisfazer suas necessidades de sobrevivência), em função do tipo de trabalho que realiza.

Ninguém percebe que a riqueza do país (alimentação - agricultura, indústria extrativa, manufaturas, transporte etc.) depende quase que totalmente do trabalho manual. Sem ele, o intelectual, o técnico, o gerente, seriam inúteis, Por outro lado, para impedir que as pessoas se preocupem com os problemas reais, o sistema cria válvulas de escape, de modo a embotar a consciência das pessoas: o futebol, as novelas, os ídolos da música popular, o carnaval, etc. Enquanto se ocupam com isso e transferem suas aspirações para os sonhos embevecedores da mídia e seus heróis, as pessoas deixam de se ocupar com os problemas concretos e questionar a estrutura social. A EDUCAÇÃO É através da escola primária, secundária e universitária que se perpetua a transmissão da ideologia. Na escola, as pessoas são formadas no respeito à lei e à ordem (que lei e que ordem? - a existente), na disciplina, na honestidade, na dignidade do trabalho (mesmo que seja trabalho explorado), no acatamento ao Estado e à autoridade (qualquer que seja ela, justa ou injusta) etc. Os estudos das matérias curriculares são dados de tal modo que a criança e o jovem não seja capaz de criticar a sociedade atual na sua essência. Quando em Matemática, para exemplificar, os professores ensinam "juros", jamais explicam com que direito alguém é obrigado a devolver mais do que recebeu e por que razão. O juro é aprendido como sendo uma forma justa e normal (e legal) de ganhar dinheiro da parte de quem tem o privilégio de possuí-lo. Isto porque os juros são essenciais no regime capitalista.

A escola é o esteio principal da ideologia do sistema. Daí porque há controle rigoroso sobre as matérias, sobre o conteúdo das mesmas, sobre os professores e os alunos. A escola que procura formar uma consciência realmente crítica se verá imediatamente alvo de repressão. É por isso que ela se torna, na prática, não só um apoio mas uma doutrinação ("lavagem cerebral") ao sistema capitalista estabelecido.

A RELIGIÃO

A religião é outro elemento fundamental para a ideologia, pois com ela se atingem as raízes do ser humano. Nela se projetam os problemas da vida e da morte. Na medida em que ela ensina que o que importa é o céu e não a terra, a vida futura e não a presente, que os males e sofrimentos são compensados na outra vida ou na outra reencarnação, que ser pobre é bom e que o homem deve se resignar com sua pobreza, que não convém lutar pelo que é seu (Deus dará depois), que ir contra o patrão é cultivar o ódio - que é coisa do diabo - etc. - ela aliena.

A religião, assim, justifica o regime de opressão existente, convence as pessoas a se adaptarem a ele. Torna-se, pois, uma verdadeira coluna, um esteio do sistema capitalista. É por isso que a classe dominante se vê ameaçada quando a Igreja começa a se colocar do lado do povo e a criticar as formas injustas de relacionamento social. As religiões que têm maior alcance e penetração são as que mais exercem a sua função ideológica. Observa-se que quanto mais pobre e subdesenvolvido um país, mais religiões e seitas pululam.

A ideia básica que perpassa as pregações consiste em fazer acreditar que as forças sociais, portanto, a riqueza e a pobreza, são movidas por forças espirituais e sobrenaturais (Deus, o destino...) e não pelos próprios humanos.

A FAMÍLIA

A família (falamos principalmente da classe média) é uma instituição bio-psico-social que tem a função de transmitir à criança em desenvolvimento as exigências da sociedade, de adaptá-la à sociedade vigente tal como está estruturada. É ela que encarna e transmite, desde os primeiros momentos da vida a ideologia ao indivíduo.

Os pais representam, para os filhos, a presença do Estado, de suas normas e de sua moral (bem como da religião, dos costumes sociais etc.). É na família que a criança aprende a respeitar a autoridade, a obedecer, a não criticar as normas estabelecidas. É, pois, a pedra angular (secundada pela escola, religião, meios de comunicação etc.) do sistema social, seja ele qual for, pois com ele convive e dele se nutre.








Compromisso dos HUMANISTAS




 Considerar o ser humano como valor máximo, acima do dinheiro, do Estado, da religião, dos modelos e dos sistemas sociais. Impulsionar a liberdade de pensamento, para além dos limites impostos pelos preconceitos estabelecidos em cada época como verdades absolutas. Promover a igualdade de direitos e de oportunidades para todos os seres humanos. Dar prioridade à saúde, à educação e à qualidade de vida de todos os habitantes de Portugal, da Europa e do mundo. Reconhecer e alentar a diversidade de costumes e culturas. Opor-se a todas as formas de discriminação. Consagrar a resistência justa contra todas as formas de violência física, económica, racial, religiosa, sexual, psicológica e moral. Construir um país livre, justo e solidário, unido na diversidade, que se converta na vanguarda da Nação Humana Universal.